Pé de quem tem diabetes: por que o cuidado é outro
Este é o texto mais cauteloso deste blog, e por um bom motivo. Se você tem diabetes, o cuidado com os pés deixa de ser conforto e passa a ser prevenção. Muda a lógica inteira.
Vou começar pelo mais importante: quem orienta o cuidado com o pé de uma pessoa com diabetes é a equipe de saúde que a acompanha. Existe avaliação específica do pé diabético, feita por profissionais habilitados, e ela deve ser periódica. Nada neste texto substitui isso.
Por que o pé exige atenção redobrada
Duas alterações podem aparecer ao longo dos anos, e elas se combinam de um jeito ruim.
A sensibilidade pode diminuir. A pessoa deixa de sentir direito calor, pressão e dor no pé. É o ponto que assusta mais quando se entende: a dor existe para avisar. Sem ela, uma bolha, um corte ou uma queimadura podem passar despercebidos por dias.
A circulação pode ficar prejudicada, o que torna a cicatrização mais lenta. Uma lesão pequena, que em outra pessoa fecharia sozinha, pode evoluir.
Juntando: uma ferida que não é sentida, num pé que cicatriza devagar. É por isso que a orientação médica é tão insistente com esse assunto, e é uma insistência justificada.
O que fazer todo dia
- Olhe os pés diariamente, inclusive a sola e entre os dedos. Se não conseguir enxergar a sola, use um espelho no chão ou peça a alguém. Isso não é exagero, é a principal medida de prevenção.
- Nunca teste a água com o pé. Use a mão, o cotovelo ou um termômetro.
- Seque bem entre os dedos.
- Hidrate a pele, mas não entre os dedos, onde a umidade favorece micose.
- Olhe dentro do sapato com a mão antes de calçar. Uma pedrinha ou uma costura solta podem machucar sem que você sinta.
- Não ande descalça, nem dentro de casa.
- Corte a unha reta, sem cavar os cantos. Calo e unha encravada são assunto para profissional, nunca para lâmina em casa.
O que evitar
- Água quente e escalda-pés, pelo risco de queimadura sem percepção. Vale para bolsa de água quente e cobertor térmico também.
- Lixar, cortar ou “raspar” calo em casa, e calicida.
- Sapato novo o dia inteiro logo de cara.
- Deixar para depois qualquer ferida, por menor que pareça.
Procure atendimento no mesmo dia se aparecer
- Ferida, bolha, corte ou rachadura, mesmo pequenos e sem dor
- Mudança de cor no pé ou nos dedos
- Inchaço novo, calor ou vermelhidão
- Dormência, formigamento ou queimação que apareceram ou pioraram
- Qualquer secreção ou cheiro diferente
Ferida em pé de pessoa com diabetes não é assunto de esperar para ver.
E terapia complementar, entra?
Com franqueza: depende, e a resposta não é minha.
Quando existe perda de sensibilidade, alteração circulatória, ferida ou histórico de úlcera, eu não atendo sem liberação de quem acompanha o caso, e o escalda-pés está fora, pelo motivo que expliquei acima.
Quando o quadro é controlado, sem complicação nos pés e com liberação da equipe de saúde, um trabalho manual leve pode entrar como cuidado complementar, com pressão adaptada e atenção redobrada, e sempre com você e eu olhando o pé antes e depois.
Se você me procurar, essa vai ser a primeira conversa que teremos. E se a resposta for que não é hora, eu vou dizer, mesmo perdendo o agendamento. Esse é exatamente o tipo de situação em que dizer não é a parte mais importante do meu trabalho.